PARTE 2
— Bento avisou que você viria… mas não contou que eu também estava na mina quando ele foi enterrado vivo e que dentro desse envelope está o nome de quem realmente mandou fechar a passagem.
A voz saiu do escuro como uma lâmina.
Soledade reconheceu antes mesmo de a chama voltar.
— Anselmo?
Um fósforo riscou a escuridão.
O rosto do capataz apareceu atrás de Jandir.
Metade da face estava coberta de sangue seco. A camisa, rasgada no ombro. Na mão direita, um revólver. Na esquerda, uma lamparina pequena.
Anselmo trabalhava para Rutílio havia quinze anos.
Era ele quem escolhia os homens que desciam para a mina.
Era ele quem levava recados, cobrava dívidas, marcava portas de famílias condenadas a perder tudo.
Também fora ele quem entregara o corpo de Bento dentro de uma rede.
Dissera que o desabamento o matara na mesma hora.
Soledade se levantou devagar, colocando-se diante dos filhos.
— Afaste a arma deles.
— Não posso.
— Então atire em mim primeiro.
Anselmo olhou para Mateus amarrado ao peito dela. O bebê soluçava de fome.
— Se eu quisesse matar vocês, não teria derrubado dois jagunços na entrada.
Foi então que Soledade percebeu.
Além do som da chuva, havia outro ruído.
Um gemido.

À direita do corredor, encostado numa parede de pedra, um homem estava caído. Era Damião, um dos jagunços do coronel. A perna dele fazia um ângulo impossível. A alguns passos, outro corpo permanecia imóvel, o rosto enterrado na lama.
— Eles chegaram antes de vocês — disse Anselmo. — Rutílio sabia da caixa.
Soledade apertou o envelope contra o peito.
— Como?
— Porque um homem ouviu Bento falar da gruta.
— Quem?
Anselmo não respondeu.
Seus olhos pousaram no caderno.
— Abra.
Soledade não se moveu.
— Abra você.
— Bento deixou para a mulher dele.
— Bento está morto.
— E talvez esteja por sua causa.
A frase atingiu Anselmo com força.
Ele baixou a arma.
— Está.
Jandir avançou um passo.
— Então foi você que matou meu pai?
— Não.
— Mas ajudou.
Anselmo fechou os olhos.
Do lado de fora, um trovão ribombou sobre a serra.
— Eu mandei os homens entrarem naquele túnel — confessou. — Sabia que as escoras estavam ruins. Avisei Rutílio. Ele disse que ninguém sairia até arrancar a pedra grande que Bento tinha encontrado.
Soledade sentiu o coração parar.
— Que pedra?
— Um diamante.
A palavra pareceu iluminar a gruta.
Anselmo se agachou e tocou o chão com a lamparina.
— Do tamanho de um ovo de galinha. Talvez maior. Bento encontrou preso numa fenda, três dias antes do desabamento. Não entregou ao coronel. Disse que aquela pedra não pagava nem metade do sangue derramado naquela mina.
— Onde está?
— Não sei.
Soledade lembrou-se de Bento chegando tarde, coberto de lama, os olhos assustados. Naquela noite, ele não comera. Ficara sentado junto à porta, observando os filhos dormirem.
No dia seguinte, vendera a única cabra.
Dissera que precisava pagar uma dívida.
Talvez tivesse usado o dinheiro para comprar a caixa.
Ou para subornar alguém.
— Rutílio descobriu? — perguntou ela.
— Desconfiou. Mandou revistar Bento. Não acharam nada. Depois ordenou que o túnel fosse fechado quando ele estivesse lá dentro.
Rosa levou as mãos à boca.
Téo ficou pálido.
— Meu pai foi enterrado vivo? — perguntou Jandir.
Anselmo não conseguiu encará-lo.
— Foi.
O menino lançou-se contra ele.
Soledade tentou segurá-lo, mas Jandir foi rápido. Acertou um soco no rosto do capataz, depois outro. Anselmo não reagiu.
— Assassino! — gritou o menino. — Assassino!
O grito correu pelos corredores da gruta.
Longe dali, alguma coisa respondeu.
Não era eco.
Eram vozes.
Anselmo agarrou Jandir pelos braços.
— Cale a boca se quiser manter seus irmãos vivos.
Passos chapinharam na água.
Homens vinham se aproximando.
Anselmo apagou a lamparina.
— Quantos? — sussurrou Soledade.
— Pelo menos três.
— Do coronel?
— Todos aqui são do coronel.
Ele empurrou Damião para o lado e revelou uma abertura estreita entre duas rochas.
— Entrem.
— Não.
— Mulher, eles não vieram buscar papel. Vieram buscar a pedra e matar testemunhas.
Soledade colocou Nita na frente. Depois Luzia, Pedrinho, Rosa e Téo. Jandir hesitou.
— Vá — ordenou ela.
— E a senhora?
— Vá.
Quando todos passaram, Anselmo entrou por último e puxou uma pedra achatada, fechando quase toda a abertura.
Ficaram espremidos num corredor tão baixo que Soledade precisou caminhar curvada.
Mateus começou a chorar.
Ela tapou a boca do bebê com o peito, rezando para que encontrasse leite.
Do outro lado da rocha, as vozes chegaram.
— Damião!
— Aqui…
— Quem fez isso?
— Anselmo…
Houve silêncio.
Depois, um tiro.
O gemido de Damião cessou.
Luzia mordeu o próprio punho para não gritar.
— E o outro? — perguntou alguém.
— Morto.
— A caixa?
— Não está aqui.
Uma terceira voz resmungou:
— Então a viúva chegou primeiro.
Soledade conhecia aquele modo arrastado de falar.
Firmino.
O homem que cavara a sepultura de Bento.
O mesmo que recebera duas moedas do coronel e desaparecera antes do fim do enterro.
— Procurem passagem — ordenou Firmino. — Rutílio quer os papéis queimados e a família dentro da gruta quando a água subir.
Anselmo aproximou os lábios do ouvido de Soledade.
— Temos pouco tempo.
— A água sobe?
— A chuva enche os corredores baixos. Daqui a uma hora, metade disso fica debaixo d’água.
Eles continuaram.
A passagem descia para o fundo da serra. O ar ficou frio. O chão, escorregadio.
As crianças já não perguntavam nada.
Apenas seguiam a luz fraca da lamparina quando Anselmo tornou a acendê-la.
Depois de alguns minutos, chegaram a uma câmara larga.
Havia marcas de ferramentas nas paredes.
Vigas apodrecidas.
Uma carroça sem rodas.
E correntes.
Pedrinho recuou ao vê-las.
— É verdade — sussurrou. — Os mortos trabalham aqui.
— Não são mortos — disse Anselmo.
Ergueu a lamparina.
No fundo da câmara, atrás de uma grade enferrujada, três homens estavam amontoados sobre palha molhada.
Magros.
Barbudos.
Com feridas nos pulsos e tornozelos.
Um deles ergueu o rosto.
Soledade reconheceu o homem apesar das bochechas fundas.
— Raimundo?
Era o garimpeiro que desaparecera dois anos antes.
A mulher dele fizera promessa, vendera a casa e passara meses procurando o corpo.
Raimundo tentou se levantar.
— Bento?
— Sou Soledade.
O homem chorou.
— Ele conseguiu.
— Conseguiu o quê?
— Levar as provas.
Anselmo tirou um molho de chaves do bolso e abriu a grade.
Os três prisioneiros mal conseguiam caminhar.
O segundo era Miguel Serrote, desaparecido havia quase um ano.
O terceiro, um rapaz que Soledade não conhecia.
— Leandro — disse ele. — Trabalhava na contabilidade da fazenda.
Soledade olhou para Anselmo.
— O coronel mantém homens presos aqui?
— Quem descobre demais não sai da serra — respondeu Raimundo. — Uns morrem na mina. Outros ficam aqui até esquecerem o próprio nome.
Téo tocou uma das correntes.
— Por quê?
Leandro apontou para a caixa.
— Porque aquilo pode derrubar Rutílio.
Soledade rompeu o selo do envelope.
Dentro havia folhas dobradas, recibos, mapas de extração, nomes de compradores e cartas assinadas.
No topo, um documento trazia o brasão do governo estadual.
Ela não sabia ler direito.
Reconhecia algumas palavras. Nomes. Números.
— Leia — pediu a Leandro.
O rapaz pegou os papéis com dedos trêmulos.
A primeira folha era uma escritura.
As terras da mina não pertenciam a Rutílio Vargas.
Pertenciam a dezenas de famílias expulsas ao longo de vinte anos.
Entre elas, a família de Bento.
O avô dele tinha sido um dos donos do morro antes de Rutílio mandar homens armados cercarem a região e registrarem tudo com documentos falsos.
A segunda folha mostrava os lucros reais da mina.
Rutílio declarava ao governo menos de um décimo do que extraía.
O restante saía escondido em carroças de algodão.
A terceira era uma lista de pagamentos.
Delegados.
Juízes.
Coletores de impostos.
Soldados.
Jagunços.
Ao lado de cada nome havia valores e datas.
Na última página, a letra mudava.
Era a escrita de Bento.
Soledade conhecia o jeito torto como ele desenhava o S.
Leandro leu:
— “Eu, Bento Ferreira, declaro que o coronel Rutílio Vargas ordenou o assassinato dos homens listados abaixo e que o capataz Anselmo das Dores recebeu as ordens diante de mim.”
Anselmo baixou a cabeça.
Leandro continuou.
— “Declaro também que a explosão do poço do norte, ocorrida em maio, não foi acidente. Foi feita para matar Joaquim Farias e seus dois filhos, porque haviam descoberto a fraude das terras.”
Soledade sentiu as pernas enfraquecerem.
Joaquim era irmão de sua mãe.
Ela crescera ouvindo que o tio morrera por descuido com pólvora.
— Continue.
Leandro virou a folha.
— “A ordem para fechar o túnel principal foi dada por Rutílio. Porém, foi Firmino Alves quem informou ao coronel onde eu estaria e que eu havia escondido documentos na Gruta da Onça.”
Soledade arregalou os olhos.
Firmino.
O coveiro.
O homem que aparecera em sua casa no dia seguinte à morte de Bento levando um punhado de feijão.
Ele perguntara se Bento havia deixado alguma coisa.
Ela pensara que fosse piedade.
— “Firmino descobriu porque ouviu a conversa que tive com Anselmo” — leu Leandro. — “Anselmo me ajudou a copiar as contas e libertou Raimundo uma vez, mas Raimundo foi recapturado. Se Anselmo ainda estiver vivo quando este papel for encontrado, ele deverá responder pelo que fez, mas também poderá confirmar tudo que está escrito.”
Jandir encarou o capataz.
— Meu pai confiava em você.
— Não — disse Anselmo. — Ele confiava que eu ainda tinha medo de Deus.
Um baque ecoou no corredor.
Os jagunços haviam encontrado a passagem.
— Temos de sair — avisou Raimundo.
— Por onde? — perguntou Soledade.
Anselmo apontou para o outro lado da câmara.
— Há um poço estreito que sobe até a encosta do norte.
Miguel riu sem humor.
— Com sete crianças e três homens que mal ficam em pé?
— Oito — corrigiu Rosa. — Somos oito.
Ninguém sorriu.
Um disparo acertou a rocha da entrada.
A bala ricocheteou pela câmara.
— Corram! — gritou Anselmo.
Eles atravessaram o salão.
Anselmo ficou para trás, atirando.
Soledade ajudou Raimundo. Jandir e Téo apoiaram Miguel. Leandro caminhou sozinho, arrastando uma perna.
A passagem terminava numa parede.
— Não tem saída! — gritou Téo.
Anselmo chegou logo depois.
Empurrou a carroça apodrecida para o lado e revelou um buraco no chão.
— Desçam.
O som de água rugindo vinha lá de baixo.
— Isso é um rio — disse Soledade.
— Um córrego subterrâneo. Ele sai do outro lado da serra.
— As crianças não sabem nadar.
— Então segurem na corda.
Anselmo puxou uma corda escondida sob pedras. Parecia velha, mas grossa.
Amarrou uma ponta numa coluna natural da caverna e lançou o resto no poço.
— Eu vou primeiro.
— Não — disse Raimundo. — Você precisa segurar os homens.
Sem esperar resposta, o prisioneiro agarrou a corda e desceu.
Logo gritou de baixo:
— Tem uma margem! Podem vir!
Soledade entregou Nita a Jandir.
— Desça com ela.
O menino obedeceu.
Depois foram Luzia, Pedrinho e Rosa.
Téo não queria largar a mãe.
— Vá.
— E Mateus?
— Está comigo.
— Pai disse que eu era o homem da casa quando ele não estivesse.
Soledade segurou o rosto do filho.
— Seu pai disse isso porque não sabia que eu seria obrigada a ser homem, mulher, escudo e faca ao mesmo tempo. Agora vá.
Téo desceu chorando.
Miguel e Leandro foram depois.
Quando Soledade agarrou a corda, Firmino entrou na câmara com dois jagunços.
— Nem mais um passo! — berrou.
Anselmo disparou.
Um jagunço caiu.
Firmino se escondeu atrás da grade.
O segundo homem atirou, acertando Anselmo no braço.
O capataz cambaleou.
— Desça! — gritou ele.
Soledade começou a escorregar pela corda.
Mateus chorava contra seu peito.
Outro tiro arrancou lascas da parede.
Então Firmino apareceu na beirada.
— Jogue a caixa!
— Vá buscar no inferno.
Soledade soltou uma das mãos e continuou descendo.
Firmino apontou a arma para Mateus.
Anselmo se lançou contra ele.
Os dois caíram no chão.
O revólver disparou.
O som foi abafado pelo rugido da água.
Soledade alcançou a margem inferior sem saber quem fora atingido.
— Anselmo! — gritou.
A corda começou a balançar.
Uma silhueta desceu.
Não era possível ver o rosto.
Raimundo puxou Soledade pelo braço.
— Temos de ir.
— Pode ser ele.
— Também pode ser Firmino.
A silhueta continuou descendo.
Um clarão atravessou o poço.
Alguém havia jogado a lamparina.
Soledade viu as botas.
E reconheceu a fivela prateada.
Firmino.
— Corram!
A família entrou na água.
O córrego alcançava a cintura dos adultos, mas passava da cabeça das crianças menores.
Raimundo carregou Nita.
Miguel levou Luzia.
Jandir colocou Pedrinho nas costas.
Soledade segurou Rosa com uma mão e o embornal com a outra.
Téo caminhava agarrado à saia dela.
Atrás, Firmino avançava, arrastando a perna.
O tiro de Anselmo o acertara na coxa, mas não o impedira de seguir.
— Vocês não vão sair! — gritou ele. — O coronel cercou a serra!
A água subia depressa.
Chuva invadia as fendas do teto.
O túnel estreitou.
Em determinado ponto, só havia espaço para passar de lado.
O peito de Soledade apertou.
A corrente puxava suas pernas.
Mateus já não chorava.
Aquilo a assustou mais do que o revólver.
— Filho?
O bebê estava mole.
— Mateus!
Ela tentou levantar o rosto dele.
Não havia luz suficiente para enxergar.
— Ele está respirando? — perguntou Rosa.
Soledade colocou dois dedos sob o nariz da criança.
Sentiu um sopro fraco.
— Está.
Firmino disparou.
A bala atingiu Miguel nas costas.
O homem caiu de joelhos, soltando Luzia.
A menina foi arrastada pela corrente.
— Luzia! — gritou Soledade.
Jandir largou Pedrinho numa pedra e se jogou.
Agarrou os cabelos da irmã.
Raimundo segurou Jandir pela cintura.
Por um instante, todos ficaram presos na força da água.
Então Leandro encontrou uma corrente antiga fixada na parede e os puxou para uma elevação.
Miguel não levantou.
O sangue dele tingiu o córrego.
Téo começou a chorar.
— Ele morreu?
Soledade não respondeu.
Firmino se aproximava.
O revólver dele clicou.
Sem balas.
O coveiro jogou a arma fora e sacou uma faca.
— Entregue os papéis.
Soledade colocou Mateus nos braços de Rosa.
— Não solte seu irmão.
— Mãe…
— Não solte.
Ela avançou para dentro da água.
Firmino sorriu.
— Você sempre teve língua demais.
— E você sempre teve coragem de menos. Precisou vender Bento pelas costas.
— Seu marido era um tolo.
— Meu marido morreu tentando salvar homens.
— Morreu por uma pedra.
— Não. Morreu porque homens como você se ajoelham diante de homens como Rutílio.
Firmino atacou.
Soledade desviou por pouco.
A faca rasgou sua manga.
Ela agarrou o pulso dele com as duas mãos, mas Firmino era mais forte. Empurrou-a contra a parede.
— O coronel prometeu me dar terras.
— Ele não dá nada.
— Deu dinheiro.
— Para cavar sepultura.
Firmino apertou o braço contra o pescoço dela.
— E vou cavar mais oito.
Jandir pegou uma pedra.
Atirou na cabeça do coveiro.
Firmino virou-se.
Soledade mordeu a mão dele.
A faca caiu na água.
Téo a encontrou antes que a corrente levasse.
— Mãe!
Soledade pegou a lâmina.
Firmino tornou a avançar.
Ela não hesitou.
Enfiou a faca abaixo das costelas dele.
O coveiro parou.
Olhou para Soledade como se não entendesse.
Depois tombou no córrego.
A corrente o arrastou para o escuro.
Ninguém falou.
Soledade ficou parada, com a mão ainda erguida e os dedos cobertos de sangue.
Rosa chorava em silêncio.
Jandir encarava a mãe.
Téo segurava a saia dela.
Foi Raimundo quem falou:
— Se ficarmos aqui, a água mata o que ele não conseguiu.
Soledade limpou a faca no vestido.
Pegou Mateus.
E seguiu.
O túnel subia depois da curva.
O ar ficou menos pesado.
Uma corrente de vento entrou pela frente.
— A saída — disse Leandro.
As crianças reuniram a última força.
Quando a primeira luz cinzenta apareceu, Pedrinho começou a rir.
Era madrugada.
A chuva diminuíra.
Eles saíram por uma fenda entre pedras, na encosta norte da serra.
Soledade caiu de joelhos na terra molhada.
Beijou o rosto de Mateus.
O bebê abriu a boca e soltou um choro fino.
Ela agradeceu a Deus.
Depois olhou para trás.
Anselmo não apareceu.
A alegria durou pouco.
Tochas surgiram abaixo.
Cavaleiros cercavam a encosta.
Rutílio previra a saída.
— Para o mato! — ordenou Raimundo.
Mas Leandro apontou para o vale.
— Não adianta.
Homens vinham dos dois lados.
Ao centro, sobre um cavalo preto, estava o coronel.
Rutílio usava uma capa escura e segurava um rifle.
Ao lado dele, amarrado sobre uma mula, havia alguém.
Anselmo.
O rosto do capataz estava inchado. Sangue descia pelo queixo.
Dois jagunços o haviam capturado antes que entrasse no poço.
Rutílio desmontou.
— Que reunião bonita.
Soledade colocou os filhos atrás de si.
— Deixe as crianças irem.
— Já dei essa oportunidade.
— O senhor deu uma ameaça.
— No meu mundo, é a mesma coisa.
Rutílio viu Raimundo, Miguel ausente e Leandro.
Seu sorriso desapareceu.
— Abram o embornal dela.
Dois jagunços avançaram.
Jandir pegou uma pedra, mas Soledade segurou o braço do filho.
— Não.
Um homem arrancou o embornal de seu ombro.
Tirou as rapaduras, a farinha, o caderno e o envelope.
Rutílio respirou aliviado.
— Bento sempre foi mais esperto do que devia.
Abriu o caderno.
Folheou as páginas.
Então as lançou numa poça e acendeu um fósforo.
O papel molhado não queimou.
O coronel chamou um jagunço.
— Querosene.
— Não temos, coronel.
Rutílio levantou os olhos devagar.
— Então use a pólvora.
Anselmo cuspiu sangue.
— Pode queimar papel. Não queima memória.
Rutílio aproximou-se dele.
— Memória morre com homem.
— E com mulher?
O coronel olhou para Soledade.
— Também.
Anselmo começou a rir.
Era um riso rouco, doloroso.
Rutílio deu-lhe uma coronhada.
— Onde está o diamante?
Anselmo caiu de lado.
— Pergunte ao morto.
Rutílio se virou para Soledade.
— Seu marido escondeu uma pedra que vale mais do que tudo que você já viu. Entregue, e deixo quatro crianças viverem.
— Quatro?
— Você escolhe.
Rosa agarrou o braço da mãe.
— Ele não sabe onde está — sussurrou Leandro. — Está blefando.
Rutílio ouviu.
Ergueu o rifle e atirou.
Leandro caiu com um buraco no peito.
As crianças gritaram.
— Agora restam menos testemunhas — disse o coronel.
Soledade viu o rapaz morrer sobre a terra.
Viu Miguel morto na água.
Viu o rosto de Bento coberto por um pano.
Sentiu o sangue de Firmino secando entre os dedos.
Alguma coisa dentro dela deixou de sentir medo.
— A pedra não está comigo.
— Onde está?
— Bento levou para o túmulo.
Rutílio a encarou.
— Eu mandei tirar a roupa dele antes do enterro.
— Nem seus homens mexeram onde precisava.
O coronel estreitou os olhos.
Soledade entendeu, naquele instante, que havia encontrado a única arma capaz de fazê-lo perder a calma.
— Está dentro do corpo dele — mentiu.
Rutílio empalideceu.
— Onde?
— Bento engoliu a pedra antes de morrer.
Anselmo levantou o rosto.
Por um segundo, Soledade teve medo de que ele a desmentisse.
Mas o capataz sorriu.
— Eu vi.
Rutílio olhou de um para o outro.
A ganância venceu a desconfiança.
— Voltem para o povoado.
Raimundo deu um passo.
— E as crianças?
— Vêm conosco.
— O senhor prometeu…
Rutílio atirou nele.
A bala acertou o ombro.
Raimundo tombou, mas continuou vivo.
— Amarre todos — ordenou o coronel. — Vamos abrir o túmulo de Bento.
O sol começou a nascer quando chegaram ao cemitério.
As primeiras pessoas do povoado saíam de casa.
Mulheres com baldes.
Homens levando enxadas.
Crianças descalças.
Todos pararam ao ver a comitiva.
Soledade vinha a pé, com as mãos amarradas, Mateus preso ao peito e os filhos cercados por jagunços.
Anselmo era arrastado por uma corda presa à sela.
Raimundo, ensanguentado, seguia sobre uma mula.
Rutílio apontou para a sepultura de Bento.
— Cavem.
Dois jagunços pegaram pás.
O padre Amaro apareceu junto à capela.
— Coronel, isso é terra sagrada.
— Sagrada é a terra que tem riqueza.
— O morto merece descanso.
Rutílio ergueu o rifle.
— Quer descansar com ele?
O padre recuou.
As pás entraram no barro.
Soledade observou a terra ser removida.
Cada golpe abria novamente a ferida de oito dias antes.
As pessoas se reuniram à distância.
Ninguém se aproximava.
Ninguém enfrentava Rutílio.
Era assim havia vinte anos.
O caixão surgiu pouco depois.
Madeira barata.
Tábua fina.
Uma das laterais já cedia por causa da chuva.
— Abram — ordenou o coronel.
Um jagunço levantou a tampa.
O cheiro fez as crianças virarem o rosto.
Soledade não virou.
Queria olhar Bento uma última vez.
Queria pedir perdão pela mentira.
Queria dizer que os filhos estavam vivos.
O corpo estava enrolado no mesmo lençol do enterro.
Rutílio mandou cortar o tecido.
— Abra a barriga.
O padre Amaro fez o sinal da cruz.
— Isso é pecado.
— Pecado é morrer pobre.
Um jagunço pegou uma faca.
Soledade fechou os olhos.
Então ouviu um grito.
— Coronel!
O homem apontava para o peito de Bento.
Preso sob o lençol, havia um pequeno saco de couro.
Rutílio avançou.
Arrancou o saco.
Abriu.
De dentro caiu uma pedra bruta, transparente, do tamanho de um ovo pequeno.
O sol da manhã atravessou o diamante.
A luz se espalhou pelo cemitério.
Todos prenderam a respiração.
Soledade também.
Ela não havia mentido.
Bento escondera a pedra no próprio corpo.
Rutílio segurou o diamante com as duas mãos.
Os olhos dele brilhavam mais do que a pedra.
— Finalmente.
— Agora deixe meus filhos irem — disse Soledade.
O coronel guardou o diamante no bolso interno da capa.
— Não.
— O senhor conseguiu o que queria.
— E vocês viram.
Rutílio apontou o rifle para Jandir.
— Começarei pelos dois mais velhos, como prometi.
Soledade lançou-se na frente.
— Não!
Um estampido ecoou pelo cemitério.
Mas não saiu do rifle do coronel.
Rutílio cambaleou.
Um fio de sangue apareceu em seu ombro.
Todos olharam para a estrada.
Dezenas de homens surgiam entre as casas.
Mineiros.
Lavradores.
Viúvas.
Velhos.
Rapazes.
Alguns traziam espingardas.
Outros, facões, foices e pedaços de pau.
Na frente deles, montado num cavalo baio, estava um homem de farda.
O delegado Ciro Mendonça.
Um dos nomes na lista de pagamentos do coronel.
Rutílio sorriu, apesar do ferimento.
— Chegou na hora, delegado. Prenda essa gente.
Ciro levantou o revólver.
Apontou para Soledade.
Depois para Anselmo.
Depois para os homens que se reuniam na praça.
Seu braço tremia.
Rutílio falou entre os dentes:
— Faça o que eu pago para fazer.
O delegado continuou imóvel.
Então três carroças apareceram atrás da multidão.
Em cima delas havia corpos cobertos por lonas.
Os mortos da mina.
Não apenas os onze do último desabamento.
Eram mais.
Muitos mais.
Corpos encontrados numa vala próxima à saída norte da gruta.
Homens desaparecidos ao longo de anos.
Entre os moradores, mulheres começaram a chorar.
Mães reconheceram camisas.
Esposas reconheceram cintos.
Filhos reconheceram botas.
O medo do povo mudou de forma.
Virou ódio.
Ciro baixou o revólver.
— Coronel Rutílio Vargas, o senhor está preso.
Rutílio riu.
— Por ordem de quem?
Uma nova voz respondeu atrás da multidão:
— Por ordem do governo do estado.
Dois automóveis surgiram na estrada de terra, acompanhados por soldados.
Um homem de terno desceu do primeiro carro.
Trazia uma pasta de couro.
Soledade nunca o vira.
Mas Rutílio conhecia.
E, pela primeira vez, o coronel demonstrou medo.
— Doutor Álvaro…
— Promotor Álvaro Sampaio — corrigiu o homem. — Recebi há três semanas uma cópia das contas de sua mina, dos registros de terras e de uma carta assinada por Bento Ferreira.
Rutílio olhou para o caderno molhado no chão.
Depois para Anselmo.
— Cópia?
O capataz cuspiu mais sangue.
— Bento não era tolo.
O promotor continuou:
— A documentação original serviria para confirmar as assinaturas. Mas as cópias bastaram para abrir investigação. Os corpos encontrados esta manhã completarão o trabalho.
Rutílio puxou o diamante do bolso.
Agarrou Rosa pelo braço.
Foi tão rápido que ninguém conseguiu impedir.
Encostou o cano do rifle no pescoço da menina.
— Afastem-se!
Soledade parou de respirar.
— Solte minha filha.
— Mande os soldados baixarem as armas.
O promotor fez sinal.
Os soldados hesitaram.
Rosa tremia.
— Mãe…
— Olhe para mim — disse Soledade. — Só para mim.
Rutílio recuou em direção ao portão do cemitério.
O cavalo preto estava amarrado ali.
— Uma carroça — exigiu. — Com água e comida.
— O senhor não sairá daqui — disse Álvaro.
Rutílio pressionou o rifle.
Rosa soltou um gemido.
Soledade viu a mão direita do coronel.
Viu o dedo no gatilho.
Viu o sangue do ombro escorrendo pela manga.
E viu outra coisa.
Atrás dele, dentro do caixão aberto, os dedos de Bento estavam fechados.
Na mão do morto havia um pequeno pedaço de papel.
Soledade não soube como não percebera antes.
Talvez estivesse escondido sob o lençol.
Talvez tivesse caído quando cortaram o tecido.
O vento puxou o papel.
Ele voou para fora do caixão.
Parou aos pés de Téo.
O menino se abaixou.
Rutílio gritou:
— Não se mexa!
Téo pegou o papel.
Leu com dificuldade.
Então olhou para a mãe.
Seu rosto perdeu a cor.
— O que está escrito? — perguntou Soledade.
Téo abriu a boca.
Mas o coronel o interrompeu.
— Jogue isso fora.
O menino apertou o bilhete.
— Foi meu pai que escreveu.
— Jogue fora!
— Téo, leia — ordenou Soledade.
Rutílio virou o rifle para o menino.
Rosa aproveitou.
Mordeu o braço do coronel.
Ele gritou.
A menina correu.
O tiro explodiu.
E Soledade viu um dos filhos cair.
PARTE FINAL
Por um segundo, o cemitério inteiro ficou em silêncio.
Depois o grito de Soledade rasgou a manhã.
— Téo!
O menino estava caído junto à sepultura.
O papel permanecia apertado em sua mão.
Soledade correu.
Jandir chegou primeiro e virou o irmão.
Não havia sangue no peito.
Nem na cabeça.
A bala acertara a terra a poucos centímetros.
Téo desmaiara de medo.
— Está vivo! — gritou Jandir. — Mãe, ele está vivo!
Soledade caiu de joelhos e puxou o filho para os braços.
Atrás dela, o coronel tentava alcançar o cavalo.
Rosa havia escapado.
O rifle estava no chão.
Mas Rutílio ainda segurava o diamante.
Anselmo avançou apesar das mãos amarradas.
Atirou o corpo contra o antigo patrão.
Os dois caíram sobre a sepultura aberta.
Rutílio socou o rosto do capataz.
Anselmo tentou segurá-lo.
Um jagunço ergueu a arma para ajudar o coronel.
O delegado Ciro atirou primeiro.
O jagunço tombou.
Foi o sinal.
Os demais homens de Rutílio olharam para a multidão.
Mais de cem pessoas os cercavam.
Foices erguidas.
Espingardas apontadas.
Ódio acumulado durante duas décadas.
Um por um, os jagunços largaram as armas.
Rutílio conseguiu se levantar.
Puxou um pequeno revólver escondido na cintura.
Apontou para Anselmo.
— Traidor.
O disparo atingiu o capataz no ventre.
Anselmo dobrou o corpo.
Ciro atirou contra Rutílio, mas o coronel se protegeu atrás de uma lápide.
Depois correu até o cavalo preto.
Subiu com dificuldade.
— Fechem a estrada! — gritou o promotor.
Rutílio disparou contra os soldados.
O cavalo avançou pelo portão, derrubando duas pessoas.
Soledade entregou Téo a Jandir.
— Fique com ele.
— Mãe!
Ela não ouviu.
Pegou o rifle caído.
Nunca havia disparado uma arma.
Bento tentara ensiná-la anos antes, quando onças atacaram as cabras.
Ela recusara.
Dizia que arma chamava desgraça.
Naquele dia, a desgraça já estava ali.
Apoiou a coronha no ombro.
Mirou no homem que fugia.
Mas Rosa agarrou sua saia.
— Não, mãe.
Soledade olhou para a filha.
A menina tinha uma marca vermelha no pescoço.
Os olhos estavam cheios de pavor.
Quando Soledade tornou a mirar, Rutílio já havia desaparecido entre as casas.
Soldados correram atrás.
O delegado montou um cavalo.
O promotor começou a dar ordens.
Mas Soledade só via Anselmo no chão.
Aproximou-se.
O capataz respirava com dificuldade.
Sangue se espalhava pela camisa.
— O papel — murmurou ele.
Téo havia recobrado os sentidos.
Ainda estava tonto, mas abriu a mão.
O bilhete de Bento trazia poucas linhas.
Soledade pegou-o.
— Leia para mim — pediu ao padre Amaro.
O padre se ajoelhou ao lado deles.
A voz dele falhou na primeira tentativa.
Depois começou:
— “Soledade, se encontrarem a pedra comigo, saibam que não é a maior riqueza que tirei da mina. A maior está escondida onde Rutílio jamais pisaria por vontade própria: sob o altar da capela que ele mandou construir para parecer homem de Deus.”
Todos olharam para a pequena igreja.
O padre continuou:
— “Não confie na pedra. Ela traz morte. Debaixo do altar há o livro verdadeiro das terras, os registros dos homens assassinados e cartas suficientes para levar Rutílio e seus aliados à prisão. Entregue tudo a alguém de fora. E diga aos nossos filhos que não morri por diamante. Morri para que eles não vivessem ajoelhados.”
Soledade fechou os olhos.
Bento havia preparado mais de um caminho.
A caixa da gruta era a prova que Rutílio conhecia.
A capela guardava o que ele jamais suspeitaria.
O promotor chamou dois soldados.
O padre Amaro abriu a igreja.
Debaixo do altar, após retirarem três tábuas, encontraram uma lata grande, coberta de cera e tecido.
Dentro estavam documentos secos.
Livros de registros.
Escrituras originais.
Cartas assinadas por autoridades.
Relatos de trabalhadores.
Nomes de mortos.
Nomes de mandantes.
Nomes de testemunhas.
E uma segunda carta de Bento.
Nela, ele contava tudo desde o começo.
Havia descoberto a fraude das terras quando Leandro lhe mostrara os livros verdadeiros da fazenda.
Procurara Anselmo porque sabia que o capataz participara de muitos crimes, mas também salvara alguns homens em segredo.
Juntos, copiaram documentos.
Depois esconderam os originais na capela.
Bento enviou cópias ao promotor por meio de um tropeiro.
Rutílio percebeu movimentações estranhas e começou a vigiar a mina.
Firmino ouviu uma conversa.
Vendeu a informação.
E Bento foi condenado.
Soledade apertou a carta contra o peito.
Queria odiar Anselmo.
Parte dela odiava.
O capataz escolhera homens para descer em túneis podres.
Ajudara a cobrar dívidas falsas.
Fechara os olhos para famílias expulsas.
Mas também arriscara a vida para ajudar Bento.
E acabara voltando à gruta para protegê-la.
— Por que não contou antes? — perguntou ela.
Anselmo respirou fundo.
— Porque homem covarde sempre acha que ainda terá tempo de fazer o certo amanhã.
— E teve?
Ele olhou para os filhos de Bento.
— Não o bastante.
O padre pressionou um pano contra o ferimento.
— Ele precisa de médico.
— O doutor da cidade vem com os soldados — disse o promotor.
Anselmo segurou o pulso de Soledade.
— Rutílio não fugirá pela estrada.
— Como sabe?
— Ele tem um esconderijo na velha casa de beneficiamento, perto do rio seco. Guarda dinheiro, armas e documentos. Se conseguir chegar lá, foge para Minas antes do meio-dia.
O delegado Ciro ouviu.
— Quantos homens podem estar esperando?
— Dois, talvez três. Os que não vieram à serra.
Ciro chamou soldados.
Soledade se levantou.
— Vou junto.
— Não vai — disse o delegado.
— Ele levou vinte anos arrancando tudo dessas famílias. Não vai sumir antes de ouvir os nomes de quem matou.
— Isso não é justiça. É vingança.
Soledade olhou para Anselmo sangrando.
Para os corpos nas carroças.
Para o caixão aberto do marido.
— Durante vinte anos, o senhor chamou o medo de lei. Agora quer me ensinar a diferença entre justiça e vingança?
Ciro não respondeu.
O próprio nome estava nos papéis.
Ele recebera dinheiro de Rutílio.
Talvez não tivesse matado ninguém com as próprias mãos, mas ignorara queixas, desaparecimentos e invasões de terra.
— Eu vou — repetiu Soledade. — O senhor pode me prender depois.
Rosa segurou a mãe.
— Não deixe a gente.
Soledade se ajoelhou diante dos filhos.
Jandir tentava parecer forte.
Téo ainda tremia.
Pedrinho e Luzia estavam cobertos de lama.
Nita dormia no colo de Raimundo, que recebia cuidados no ombro.
Mateus chorava de fome.
Aquela era a família que restava.
A única coisa no mundo pela qual valia a pena continuar respirando.
— Eu não vou deixar vocês — disse ela. — Nunca.
— Então não vá — pediu Téo.
Soledade passou a mão nos cabelos dele.
— Seu pai morreu para impedir que esse homem continuasse. Se Rutílio escapar, volta com outros jagunços. Compra outro delegado. Mata outras famílias. E passaremos o resto da vida correndo.
— A gente corre junto — disse Jandir.
— Não. Chega de correr.
Ela entregou Mateus a Rosa.
— Leve seus irmãos para a casa de dona Alzira. Fiquem com o padre e o promotor. Eu volto.
— Promete? — perguntou Luzia.
Soledade olhou para o túmulo de Bento.
Promessas eram perigosas.
Bento prometera voltar da mina.
Ela mesma prometera que os filhos nunca sentiriam fome.
A vida quebrava promessas sem pedir licença.
— Faço tudo que puder para voltar.
Subiu numa carroça com Ciro e quatro soldados.
O promotor tentou impedir.
— A senhora é testemunha central.
— Também sou a única pessoa que Rutílio ainda acredita poder enganar.
A velha casa de beneficiamento ficava a uma légua do povoado.
O caminho passava por mandacarus altos, pedras negras e trechos onde a chuva transformara poeira em lama profunda.
No meio do percurso, encontraram o cavalo preto.
Estava amarrado a uma árvore.
Rutílio seguira a pé.
— Ele quer esconder o rastro — disse Ciro.
Soledade observou o chão.
Marcas de botas seguiam para o leito seco do rio.
Eram duas pessoas.
— Alguém encontrou com ele.
Os soldados se espalharam.
Avançaram em silêncio.
A casa surgiu atrás de uma elevação.
Era uma construção de pedra, com telhado parcialmente destruído e uma chaminé alta.
Ali, anos antes, homens separavam diamantes do cascalho.
Depois Rutílio transferiu o trabalho para perto da fazenda.
O lugar parecia abandonado.
Mas havia fumaça saindo da chaminé.
Ciro fez sinal para dois soldados contornarem os fundos.
Outro ficou junto à porta.
Soledade e o delegado se aproximaram de uma janela quebrada.
Lá dentro, Rutílio enchia uma mala.
Dinheiro.
Joias.
Documentos.
Sobre a mesa, havia dois revólveres, uma garrafa de cachaça e o diamante.
Ao lado dele estava o tabelião Ramiro.
Um homem baixo, de mãos macias, responsável por registrar quase todas as terras da região.
— Os livros verdadeiros foram encontrados — dizia Ramiro. — Seu nome está em tudo.
— Então queimaremos o cartório antes de partir.
— Há soldados no povoado.
— Soldados também gostam de dinheiro.
Ramiro balançou a cabeça.
— Desta vez não.
Rutílio parou.
— Está com medo?
— Estou pensando.
— Homem que pensa demais perde a coragem.
— E homem que mata demais perde aliados.
Rutílio sacou o revólver.
Atirou no peito do tabelião.
Soledade conteve um grito.
Ramiro caiu sobre a mala.
Rutílio empurrou o corpo para o lado e continuou guardando dinheiro.
Ciro levantou-se.
— Acabou, Rutílio!
O coronel girou e disparou contra a janela.
O vidro restante explodiu.
Soledade e Ciro se jogaram no chão.
Os soldados responderam.
Balas atingiram as paredes.
Rutílio derrubou a mesa, usando-a como proteção.
— Delegado! — gritou ele. — Esqueceu quem pagou a escola de sua filha?
Ciro recarregou o revólver.
— Não.
— Quem comprou sua casa?
— Não.
— Quem enterrou a denúncia depois que você matou um homem numa briga?
Ciro empalideceu.
Soledade olhou para ele.
O delegado evitou seus olhos.
Rutílio riu dentro da casa.
— Todos têm preço, viúva! Até os homens que vieram salvá-la!
— Talvez — respondeu Soledade. — Mas alguns descobrem tarde que o preço cobrado é maior.
Ciro respirou fundo.
Levantou-se e atirou duas vezes.
Rutílio respondeu.
Uma bala acertou o delegado no lado do peito.
Ele caiu.
Soledade o puxou para trás de uma mureta.
— Colete — murmurou Ciro, ofegante. — Pegou no couro.
A bala não atravessara totalmente, mas ele mal conseguia respirar.
— Fique aqui.
— Não entre.
Soledade pegou o revólver dele.
— A senhora não sabe usar.
— Aprendo depressa.
Ela contornou a casa enquanto os soldados mantinham fogo pela frente.
Encontrou uma porta estreita nos fundos.
Estava trancada.
Pegou uma pedra e quebrou a parte apodrecida perto da fechadura.
Enfiou o braço.
Abriu.
Lá dentro, a fumaça da pólvora queimava os olhos.
Ramiro ainda se mexia.
Soledade se abaixou junto a ele.
— Ajude…
Havia sangue demais.
— Onde está a outra saída?
O tabelião apontou para o chão.
Um alçapão.
Rutílio planejava fugir por baixo.
Soledade levantou a tampa.
Viu uma escada descendo para um túnel estreito.
O coronel já havia entrado.
Ela poderia esperar os soldados.
Deveria esperar.
Mas ouviu cascos do outro lado.
Rutílio tinha outro cavalo escondido.
Soledade desceu.
O túnel era baixo e cheirava a terra úmida.
À frente, uma luz se movia.
Ela seguiu.
Saiu atrás de um depósito de pedras.
Rutílio estava a poucos metros, tentando colocar a sela num cavalo castanho.
A mala de dinheiro jazia no chão.
O diamante estava preso entre os dentes enquanto ele apertava as correias.
— Pare.
Rutílio congelou.
Virou devagar.
Ao ver Soledade com o revólver, sorriu.
— Você não consegue.
— Consegui com Firmino.
O sorriso desapareceu.
— Então era você.
— Ele tentou matar meus filhos.
— E agora carrega um morto na consciência.
— Carrego Bento, Miguel, Leandro, Joaquim, Raimundo ferido, os homens das carroças e todos os que o senhor jogou na serra. Firmino quase não cabe.
Rutílio tirou o diamante da boca.
A pedra brilhava entre seus dedos sujos de sangue.
— Sabe quanto vale?
— Não.
— Uma fortuna.
— Quantas vidas compra?
— Todas.
— Errado.
Soledade apontou para ele.
— Com essa pedra, você pode sair daqui rica. Levar os filhos para Salvador. Comprar casa. Terra. Criados. Nunca mais passar fome.
— E deixar o senhor fugir?
— Eu desapareço. Você diz que me matou. Ninguém saberá.
— Bento saberia.
— Bento está apodrecendo numa caixa.
A mão de Soledade tremeu.
Rutílio percebeu.
Começou a se aproximar.
— Ele fez você acreditar que morreu por justiça. Morreu porque queria ficar com isso.
— Pare.
— Escondeu a pedra no corpo porque sabia que ninguém revistaria um morto.
— Pare.
— Não contou nem à própria mulher.
— Pare!
Rutílio abriu a mão.
O diamante capturou o sol.
— Pegue.
Soledade não se moveu.
— Seus filhos estão magros. Seu bebê não tem leite. Com esta pedra, nunca mais pedirão nada a ninguém.
Ele jogou o diamante no chão entre os dois.
— É seu.
Soledade olhou.
A pedra parecia conter fogo.
Por causa dela, Bento fora enterrado vivo.
Homens haviam sido acorrentados.
Famílias perderam pais, casas e terras.
Mas o coronel tinha razão numa coisa.
Aquela pedra poderia mudar a vida de oito crianças.
Poderia comprar comida, remédios, estudo.
Poderia impedir que Jandir e Téo descessem para uma mina.
Soledade baixou o revólver apenas um pouco.
Rutílio avançou.
Ela viu tarde demais a faca surgindo na manga dele.
Desviou do primeiro golpe.
A lâmina cortou sua testa.
O sangue entrou no olho esquerdo.
Rutílio agarrou o braço da arma e torceu.
O revólver caiu.
Soledade acertou o joelho dele com o pé.
Os dois tombaram sobre a lama.
Rutílio apertou o pescoço dela.
— Você devia ter me dado os meninos.
Soledade tentou respirar.
O rosto de Bento apareceu em sua memória.
Não morto.
Vivo.
Sentado diante do casebre, ensinando Jandir a remendar uma sandália.
Carregando Téo nos ombros.
Cantando baixo para Rosa dormir.
Rindo quando Pedrinho caiu dentro do barreiro.
Mostrando a Luzia como reconhecer chuva pelo cheiro do vento.
Colocando Nita no colo.
Beijando a barriga de Soledade quando Mateus ainda não tinha nascido.
Ela procurou alguma coisa no chão.
Seus dedos tocaram o diamante.
Apertou a pedra.
E a golpeou contra o ferimento no ombro do coronel.
Rutílio gritou.
Soledade o empurrou.
Pegou a faca.
Ficou sobre ele.
A ponta da lâmina encostou no pescoço do homem.
— Faça — provocou Rutílio. — Mostre aos seus filhos que é igual a mim.
Soledade pensou em Firmino desaparecendo na correnteza.
Lembrou-se do corpo cedendo quando a faca entrou.
Sabia que conseguiria.
Talvez desejasse.
Mas ouviu passos.
Jandir apareceu entre as pedras.
Atrás dele vinham Téo, Rosa e os outros.
O padre Amaro corria tentando alcançá-los.
— Eu mandei vocês ficarem no povoado! — gritou Soledade.
Jandir respirava com dificuldade.
— A senhora prometeu voltar.
Ela olhou para os sete filhos.
Todos a observavam.
Mateus estava nos braços de Rosa.
Rutílio sorriu, certo de que aquela presença o salvaria.
Soledade levantou a faca.
Por um instante, ninguém soube o que faria.
Depois ela a jogou longe.
— Não sou igual ao senhor.
Rutílio riu.
— Então é fraca.
Ele tentou alcançar o revólver.
Jandir foi mais rápido.
Chutou a arma para longe.
Téo pegou uma corda da sela.
As crianças cercaram o coronel.
Juntas, ajudaram Soledade a amarrar suas mãos.
Rutílio se debateu.
— Soltem-me!
Pedrinho puxou a corda com mais força.
— Criança não é bicho de carga — disse ele. — Mas sabe dar nó.
Quando os soldados chegaram, encontraram o homem mais temido da região sentado na lama, amarrado pelos filhos de um peão.
O promotor recolheu o diamante.
Lacrou-o numa caixa.
— Pertencerá ao processo — disse.
Soledade assentiu.
Não olhou para a pedra novamente.
Rutílio foi levado para Salvador sob escolta.
No caminho, tentou subornar soldados.
Depois tentou ameaçá-los.
Quando percebeu que nenhum obedeceria, pediu para falar com políticos.
As cartas encontradas sob o altar fizeram seus aliados negarem que o conheciam.
Homens que beberam em sua mesa por anos declararam que sempre desconfiaram dele.
Autoridades devolveram parte do dinheiro.
Outras fugiram.
O delegado Ciro confessou os pagamentos que recebera e entregou provas contra juízes e coletores.
Não escapou da punição.
Mas sua colaboração evitou uma pena maior.
O tabelião Ramiro morreu antes do anoitecer.
Anselmo quase teve o mesmo destino.
O médico retirou a bala na casa de dona Alzira, sobre uma mesa de cozinha.
Durante três dias, ninguém soube se sobreviveria.
Na quarta manhã, abriu os olhos.
Soledade estava ao lado.
— Os meninos?
— Vivos.
— Todos?
— Todos.
Anselmo chorou.
Depois foi preso.
O promotor explicou que responderia pelos crimes cometidos.
Soledade não pediu perdão para ele.
Também não pediu condenação maior.
A verdade seria suficiente.
Meses depois, diante do juiz, Anselmo confessou tudo.
Nomeou jagunços.
Descreveu valas.
Mostrou túneis.
Contou quais mortes haviam sido acidentes e quais foram planejadas.
Sua pena foi reduzida por ajudar a libertar prisioneiros e reunir provas, mas ainda passou anos na cadeia.
Raimundo voltou para a esposa, que desmaiou ao vê-lo na porta.
Miguel foi encontrado dois dias depois, preso entre pedras no córrego.
O corpo recebeu enterro digno.
Leandro também.
Os homens das carroças foram identificados aos poucos.
Cada família pôde chorar diante de um nome.
O julgamento de Rutílio durou semanas.
O coronel entrou no tribunal com roupa cara e cabelo penteado.
Ainda acreditava que dinheiro abriria portas.
Mas o diamante foi apresentado.
Os livros da capela foram lidos.
As cartas de Bento foram reconhecidas.
Raimundo testemunhou.
Soledade também.
Quando perguntaram se Rutílio ameaçara matar seus filhos, ela se levantou.
Olhou para o homem.
— Ele não ameaçou apenas os meus. Ameaçou todos os filhos dos pobres que acreditavam ter nascido para obedecer.
Rutílio recebeu condenação por assassinatos, cárcere privado, falsificação, invasão de terras, fraude e exploração ilegal.
Não voltou à fazenda.
Morreu anos depois, numa prisão distante, doente e sozinho.
Dizia a todos que ainda era dono da serra.
Ninguém acreditava.
As terras foram divididas entre as famílias que possuíam os registros verdadeiros.
Parte da mina ficou interditada.
Outra parte passou a ser explorada por uma cooperativa, com escoras novas, fiscalização e pagamento dividido.
Soledade recebeu o pedaço que pertencera ao avô de Bento.
Não era a maior área.
Mas tinha água.
Terra suficiente para milho, feijão e algumas cabras.
O casebre queimado pelos jagunços foi reconstruído.
Dessa vez, com paredes mais firmes.
Jandir nunca entrou na mina.
Aprendeu a ler com o padre Amaro e, anos depois, tornou-se professor.
Téo virou carpinteiro.
Dizia que nenhum homem morreria sob madeira podre feita por suas mãos.
Rosa estudou enfermagem e voltou para cuidar das mulheres do povoado.
Pedrinho cresceu contando que ajudara a prender um coronel antes de completar nove anos.
Luzia aprendeu a escrever cartas para quem não sabia.
Nita mal se lembrava da gruta.
Mateus cresceu ouvindo tantas versões daquela noite que passou a dizer que havia enfrentado jagunços ainda amarrado ao peito da mãe.
Soledade nunca o corrigia.
Anos depois, quando Anselmo deixou a prisão, voltou ao povoado.
Estava mais velho.
Mancava.
Trazia apenas uma sacola.
Parou diante da casa de Soledade.
Jandir, já homem, ficou na porta.
— O que procura?
— Trabalho.
— Aqui?
— Onde houver.
Soledade apareceu atrás do filho.
Os dois se encararam.
Havia coisas que o tempo não apagava.
Mas também havia dívidas que não podiam ser pagas com ódio.
— A cooperativa precisa de alguém que conheça os túneis — disse ela. — Você trabalhará sob ordens dos homens que um dia mandou.
Anselmo assentiu.
— É justo.
— Não. Justo seria Bento estar vivo. Isso é apenas o que restou.
Ele baixou a cabeça.
— Eu sei.
Soledade permitiu que ficasse.
Nunca o chamou de amigo.
Nunca esqueceu o que fizera.
Mas também não negou o que tentou corrigir.
A Gruta da Onça foi fechada por decisão do povoado.
A entrada recebeu uma cruz de madeira com os nomes dos homens encontrados.
Durante muitos anos, crianças ainda juravam ouvir correntes quando chovia.
Os mais velhos diziam que era apenas a água correndo por dentro da serra.
Soledade sabia que certos sons não vinham da pedra.
Vinham da memória.
No décimo aniversário da morte de Bento, ela subiu até a gruta com os filhos.
Levou flores do campo.
Jandir carregou uma placa.
Nela, estavam gravadas as últimas palavras da carta do pai:
“NÃO MORRI POR DIAMANTE. MORRI PARA QUE ELES NÃO VIVESSEM AJOELHADOS.”
Colocaram a placa na entrada.
Depois seguiram até o cemitério.
A sepultura de Bento ficava sob um umbuzeiro jovem.
Soledade sentou-se diante dela.
Os filhos se espalharam ao redor.
Mateus, já com dez anos, perguntou:
— Pai sabia que a senhora encontraria tudo?
Ela pensou um pouco.
— Seu pai sabia que eu iria buscar vocês até dentro do inferno.
— E teve medo?
— Muito.
— A senhora também?
Soledade sorriu.
— Coragem não é não ter medo. É não entregar seus filhos ao medo.
Jandir colocou a mão no ombro da mãe.
Ao longe, o sino da capela tocou.
A mesma capela sob a qual Bento escondera a verdade.
Agora ali funcionava uma pequena escola durante a semana.
Na parede, entre o altar e as janelas, havia uma lista com os nomes de todos os mortos da mina.
Nenhum fora esquecido.
Soledade se levantou.
O sol começava a descer atrás da serra.
Anos antes, Rutílio lhe dera até o pôr do sol para entregar os dois filhos mais velhos.
Ela olhou para Jandir.
Depois para Téo.
Os dois estavam vivos.
Todos estavam.
Pela primeira vez, o pôr do sol não parecia uma ameaça.
Era apenas o fim de mais um dia.
E Soledade voltou para casa cercada pelos oito filhos, enquanto a luz vermelha cobria a caatinga e transformava a serra inteira numa pedra brilhante.
Não um diamante.
Algo mais raro.
Terra livre.
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