PARTE 1
— Se você ama tanto uma morta, vai morar no cemitério com ela.
Foi a primeira coisa que Verónica me disse quando voltei do hospital com uma cicatriz nova no abdômen, as pernas trêmulas e uma bolsa de remédios pendurada no braço.
Eu tinha dezesseis anos e, desde criança, carregava uma doença renal que havia me roubado mais aniversários do que lembranças felizes. Conhecia melhor os corredores do Hospital Civil de Guadalajara do que as salas da minha própria escola. Sabia reconhecer o som de uma enfermeira cansada, o cheiro do soro, o olhar de um médico quando tenta dizer algo grave sem assustar.
Meu pai, Gustavo, sempre foi minha rocha. Tinha quarenta e oito anos, era consultor financeiro e viajava com frequência, mas cada vez que eu era internada deixava reuniões, clientes e hotéis para dormir em uma cadeira desconfortável ao lado da minha cama. Ele me penteava quando eu não conseguia levantar os braços. Lia mensagens das minhas amigas quando a febre não me deixava enxergar a tela. E repetia que minha mãe, Lucía, teria orgulho de mim.
Minha mãe morreu quando eu tinha três anos. Eu me lembro pouco, quase nada, mas ela deixou coisas: cartas escritas para quando eu crescesse, fotografias com cheiro de madeira antiga, um colar de prata usado no casamento, uma caixinha azul com brincos da minha avó e um rebozo bordado pelas mulheres da família em Michoacán. Para os outros, eram objetos. Para mim, eram a única forma de tocá-la.
Verónica entrou na nossa vida quando eu tinha nove anos. No começo, tentou parecer doce. Me comprava laços, me dava doces e dizia na frente do meu pai que queria ser “uma segunda mãe”. Mas quando ele viajava, sua voz mudava. Ela dizia que eu era uma sombra dentro da casa. Que minha doença manipulava meu pai. Que meu rosto triste fazia ela se lembrar demais de Lucía.
Com o tempo, aprendi a não responder. Não queria colocar meu pai no meio. Ele parecia feliz por ter encontrado alguém depois de tanta dor, e eu não queria ser a filha amarga que estragava tudo.
A cirurgia daquele mês foi complicada. Abriram meu corpo para corrigir um problema que vinha piorando há tempo. Fiquei quase duas semanas internada. Meu pai ficou comigo até uma emergência com um cliente em Monterrey obrigá-lo a viajar dois dias antes da minha alta.
— Verónica vai cuidar de você, filha — disse ele, cheio de culpa. — Eu volto assim que puder.
Eu assenti porque não queria preocupá-lo.
Quando cheguei em casa, Verónica nem me ajudou a descer do carro. Abriu a porta com um sorriso fino e disse que a sopa estava na geladeira, “caso eu conseguisse me servir sozinha”.
Subi para o meu quarto devagar, me apoiando na parede. Tudo parecia normal no início. Minha cama, minhas cortinas, meus livros. Me deitei e adormeci.
Quando acordei, percebi o silêncio estranho. Minha penteadeira estava vazia.
Não estava a foto da minha mãe me carregando em Chapala. Não estava o colar dela. Não estavam as cartas. Abri a gaveta onde guardava a caixinha azul e senti o estômago congelar. Vazia. Corri até o armário como pude, sentindo os pontos arderem. As caixas onde guardávamos o rebozo, vestidos e documentos da família tinham desaparecido.
Desci quase me arrastando.
— Onde estão as coisas da minha mãe?
Verónica estava na cozinha, lixando as unhas.
— Fiz uma limpeza.
— Que limpeza? Onde você colocou?
Ela me olhou como se eu fosse uma criança birrenta.
— Em um lugar onde não vão mais atrapalhar.
Senti falta de ar.
— Me diz que estão em um depósito.
Ela soltou uma risada baixa, cruel.
— Eu queimei, Mariana.
Fiquei imóvel.
— Não.
— Sim. No quintal. Tudo. Cartas, fotos, roupas velhas, bugigangas. Já estava cheirando a passado demais nesta casa.
Levei a mão à minha cicatriz, porque a dor física se misturou com algo pior.
— Meu pai vai te odiar por isso.
Verónica se aproximou e falou quase no meu ouvido:
— Seu pai precisava se libertar. Eu fiz o que você nunca deixou ele fazer: enterrar sua mãe de uma vez.
Então tirou do bolso do avental um punhado de cinzas dentro de um guardanapo dobrado e colocou sobre a mesa.
— Toma. Pra você ter uma lembrança.
E ali eu entendi que não tinha sido um impulso. Ela tinha esperado eu estar fraca, meu pai ausente, ninguém capaz de impedir.
E eu ainda não sabia o que estava prestes a acontecer depois…
A Parte 2 está nos comentários.
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