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**Cheguei encharcada ao meu apartamento e encontrei a família do meu marido usando a minha sala como se fosse um bar; ele me bateu na frente de todos e disse: “Vai para a cozinha.” Eu apenas peguei o celular, liguei para o advogado e então apareceu a dívida de 9 milhões que eles tinham escondido.**

— Se você veio cansada, melhor ainda. Assim obedece sem fazer tanto drama.
Foi a primeira coisa que Camila Duarte ouviu ao abrir a porta do próprio apartamento em Polanco, já quase uma da manhã, com o cabelo grudado pela chuva, os pés inchados dentro de um salto que ela já não aguentava mais e o notebook apertado contra o peito.
A frase saiu da boca de Diego, seu marido.
Ele estava sentado na sala com uma cerveja na mão, cercado pela família, como se aquele lugar fosse um bar de beira de estrada. Havia garrafas espalhadas sobre a mesa, pratos com restos de churrasco sobre o tapete claro, guardanapos jogados pelo chão e duas crianças pulando no sofá que Camila havia comprado com o primeiro bônus que recebeu como diretora financeira.
Ninguém se levantou.
Ninguém pediu desculpas.
Dona Aurora, sua sogra, olhou para ela com um sorriso venenoso do sofá principal.
— Olhem só. A doutora finalmente chegou. Vamos ver se agora ela se lembra de que tem marido, e não só trabalho.
Camila engoliu em seco. Ela vinha de concluir uma auditoria complicada em Santa Fe. Durante três semanas tinha dormido pouco, comido mal e sustentado uma empresa inteira, enquanto Diego continuava prometendo que seu negócio de cozinhas planejadas “estava prestes a decolar”.
— Diego, por que sua família inteira está aqui? — perguntou, tentando manter a calma. — Amanhã tenho uma reunião às oito.
Memo, o cunhado, caiu na gargalhada.
— Ah, desculpa, dona importante. Não sabíamos que respirar no seu palácio precisava de autorização.
Camila olhou para a parede da sala de jantar. Estava rabiscada com canetinha. Depois viu sua louça quebrada perto da cozinha. Seu peito apertou.
Aquele apartamento era dela antes mesmo de se casar. O pai o havia deixado em seu nome porque dizia que toda mulher precisava ter uma porta só sua, mesmo depois de prometer amor eterno.
Mas, desde que Diego se mudou para lá, a família dele começou a entrar como se também tivesse herdado as chaves.
— Quero que vocês vão embora — disse Camila.
O silêncio foi quebrado por uma risada seca de Diego.
— Ir embora? Eles são a minha família.
— E esta é a minha casa.
Dona Aurora levantou-se, indignada.
— Aí está. Sempre esfregando o dinheiro na nossa cara. É por isso que meu filho vive humilhado, porque você se acha mais homem do que ele.
Diego colocou a cerveja sobre a mesa e caminhou até Camila. Seus olhos estavam vermelhos e a mandíbula travada.
— Peça desculpas a eles.
— Não.
O primeiro tapa a pegou de surpresa.
Camila sentiu o mundo girar. Seu notebook caiu no chão. A ardência tomou conta da bochecha, mas o pior foi olhar em volta e perceber que ninguém estava surpreso.
Como se todos estivessem esperando por aquele momento.
— Diego… — sussurrou ela.
— Eu mandei você me respeitar.
O segundo tapa rachou seu lábio.
O terceiro a fez cair contra a mesa.
Dona Aurora não correu para impedir o filho. Pelo contrário. Apenas ajeitou a bolsa no colo e comentou:
— Às vezes uma mulher só aprende quando o marido impõe limites.
Camila permaneceu imóvel, com gosto de sangue na boca e o coração batendo mais forte do que a chuva contra as janelas.
Foi então que ela entendeu uma coisa.
Aquilo não era uma discussão.
Era uma emboscada.
Havia dias ela vinha percebendo coisas estranhas: contas escondidas, ligações que Diego encerrava assim que ela entrava no cômodo, mensagens apagadas, uma cópia da escritura do apartamento desaparecida da gaveta. Até sua assistente a havia avisado de que alguém tentara solicitar um empréstimo usando documentos de sua empresa.
Camila levantou-se lentamente.
Diego sorriu, convencido de que finalmente a havia quebrado.
— Agora sim. Vai para a cozinha.
Ela tirou o celular do casaco encharcado.
— Eu não vou cozinhar.
— Então o que você vai fazer?
Camila discou um número e ativou o viva-voz.
Uma voz masculina atendeu:
— Doutora Duarte, estamos na recepção. Podemos subir?
Diego empalideceu.
Memo parou de rir.
Dona Aurora levantou-se imediatamente.
Camila encarou o marido, com o lábio ainda sangrando.
— Subam. Todos estão aqui. E avisem ao senhor Robles que Diego não tem mais acesso às minhas contas, à minha empresa, nem a um único centavo para pagar a dívida de 9 milhões que ele escondeu usando o meu nome.
No corredor, ouviu-se o som do elevador chegando.
Diego, que poucos segundos antes se sentia dono da casa, começou a tremer como se tivesse acabado de ouvir a própria sentença se aproximando.
**O que você faria se uma família inteira ficasse apenas olhando enquanto você era humilhada dentro da sua própria casa?**

**PARTE 2** O elevador se abriu com um som suave, mas, para Diego, foi como se a porta tivesse sido arrombada. Entraram três homens de terno escuro, encharcados pela chuva, e atrás deles vinha um senhor de barba grisalha, óculos de armação fina e uma pasta preta debaixo do braço. Ele não parecia um criminoso. Parecia pior: alguém acostumado a cobrar aquilo que os outros juravam conseguir esconder. — Boa noite — disse o homem. — Sou Arturo Robles. Dona Aurora fez o sinal da cruz. Memo tentou caminhar em direção à cozinha, mas um dos homens bloqueou sua passagem. Robles olhou primeiro para Camila. Viu o lábio cortado, a marca no rosto, a roupa encharcada. Depois olhou para Diego. — Então você tem coragem de bater nela. Mas, na hora de pagar, essa coragem desaparece. Diego levantou as mãos. — Seu Arturo, amanhã resolvemos isso. A Camila está exagerando. Ela tem dinheiro de sobra, só está fazendo drama. Camila soltou uma risada amarga. — Nunca mais fale do meu dinheiro como se ele fosse o ar que você respira. Robles abriu a pasta. — Seu marido e o irmão dele pegaram um empréstimo de 9 milhões. Disseram que era para comprar máquinas para a oficina, mas metade foi para apostas e a outra metade para contas pessoais. Eles apresentaram cópias da escritura do seu apartamento, demonstrativos financeiros da sua empresa e uma suposta autorização assinada pela senhora. — Falsificada — respondeu Camila. — É o que tudo indica. A sala inteira ficou em silêncio. Dona Aurora apertou os lábios. — Meu filho não falsificou nada. Ele só queria fazer o negócio dele crescer. Uma esposa decente ajuda o marido. — Esposa não é caixa eletrônico — retrucou Camila. Durante quase um mês, Camila montou aquele quebra-cabeça em silêncio. Encontrou notas fiscais falsas, fornecedores inexistentes, e-mails enviados por uma conta que imitava a dela e movimentações suspeitas em um cartão corporativo. Sua contadora, Maribel, avisou que alguém estava tentando abrir uma linha de crédito usando sua assinatura digital. Camila não confrontou Diego imediatamente. Esperou. Porque uma parte dela ainda precisava acreditar que existia uma explicação menos suja. Mas, naquela noite, a explicação estava sentada na sala de sua casa, bebendo tequila sobre o seu tapete. Robles deu um passo em direção a Diego. — A doutora me procurou para deixar claro que não vai pagar um único centavo dessa dívida. Portanto, o problema já não é dela. É de vocês. Memo começou a suar. — Diego, conta a verdade. — Cala a boca! — rosnou Diego. Camila olhou para Memo. — Que verdade? Ninguém respondeu. Então, pela porta de serviço, apareceu Rosa, a senhora que ajudava Camila três vezes por semana havia anos. Suas mãos tremiam e seus olhos estavam cheios de medo. — Dona Camila… me perdoe. Dona Aurora levantou-se de um salto. — Você fique calada, sua intrometida! Rosa tirou do bolso do avental um pen drive embrulhado em um guardanapo. — Mandaram que eu jogasse isso fora. Mas eu não consegui. Camila sentiu um frio diferente percorrer o corpo. Conectou o pen drive ao notebook, que, por milagre, ainda funcionava. O primeiro arquivo era um áudio. A voz de Dona Aurora ecoou pela sala: “Rosa, hoje você coloca as gotas no café dela quando ela chegar. Não vai acontecer nada com ela, só vai dormir. Depois que ela apagar, o Diego tira as fotos e usa o dedo dela para assinar. Depois dizemos que ela ficou bêbada com outro homem. Uma mulher que ainda tem vergonha prefere assinar qualquer papel a passar por essa humilhação.” Camila parou de respirar. Diego abaixou a cabeça. Lupita, irmã de Diego, começou a chorar em silêncio. — Fotos? — perguntou Camila. — Que fotos? Rosa apontou para uma mochila debaixo da mesa. Robles a abriu. Dentro havia um pequeno frasco, uma câmera escondida, documentos de cessão de ações, um acordo de divórcio e uma procuração com espaços prontos para serem preenchidos. Camila pegou a procuração. Seu nome estava escrito no alto da página. Sua assinatura aparecia escaneada no final. — Vocês queriam tomar a minha empresa. Dona Aurora ergueu o queixo. — Nós queríamos proteger meu filho de uma mulher egoísta. Você tem demais. Ele merece alguma coisa. — Merece me roubar? — Merece não viver sustentado. Diego explodiu. — Já chega, mãe! Todos olharam para ele. Por um segundo, Camila pensou que ele finalmente iria defendê-la. Mas Diego apenas acrescentou: — Você não precisava dizer desse jeito. Foi o último pedaço de amor que ainda existia dentro dela que se despedaçou. Camila abriu outro arquivo. Era um vídeo de Diego falando ao telefone na garagem. “Quando ela assinar, vendemos as ações dela. Com esse dinheiro eu pago o Robles, compro a casa da Karla em Cuernavaca e vou embora. A Camila nem vai entender o que aconteceu até ser tarde demais.” Karla. Aquele nome caiu como uma pedra. Camila não gritou. Não perguntou quem era. Não fez escândalo. Seu rosto, marcado pelos golpes, endureceu. — Então também existia outra mulher. Diego tentou se aproximar. — Não é como você está pensando. — Claro que não. É pior. Robles fechou a pasta. — Com tudo isso, a senhora pode denunciá-los ainda hoje. Camila olhou para Diego. Ele estava pálido, encurralado, mas ainda procurava uma saída. E ela decidiu lhe dar uma. Não por compaixão. Por estratégia. — Amanhã, às nove da manhã, você vai ao escritório do meu advogado — disse ela. — Você, o Memo e a sua mãe. Dona Aurora franziu a testa. — Para quê? — Para assinar um acordo de administração temporária da oficina e reconhecimento da dívida. Se realmente querem que eu os ajude, vão colocar o nome de vocês em cada movimentação. Diego levantou a cabeça, confuso. — Você vai me ajudar? Camila olhou diretamente para ele, sem piscar. — Vou deixar que você prove quem realmente é. No dia seguinte, Diego chegou de banho tomado, perfumado e usando uma camisa nova. Dona Aurora estava vestida como se fosse para uma missa solene. Memo parecia não dormir havia dias. Na sala de reuniões, o advogado de Camila colocou os documentos sobre a mesa. Diego leu apenas por cima. Viu palavras como “administração”, “pagamentos”, “fornecedores” e “poderes temporários”. Sorriu. Achou que Camila continuava sendo a esposa que cedia para salvar o casamento. Assinou. Memo assinou. Dona Aurora assinou como testemunha. Camila também assinou, usando óculos escuros para esconder os hematomas. Durante quarenta e oito horas, Diego agiu como dono de tudo. Entrou na oficina, ordenou transferências, pressionou funcionários e enviou dinheiro para duas empresas fantasmas. Também fez uma transferência para Karla como entrada de uma casa. O que ele não sabia era que cada movimentação estava sendo monitorada por Maribel, pelo advogado e pelo Ministério Público. No terceiro dia, Camila o chamou novamente ao apartamento. Disse que conversariam sobre a escritura. Diego chegou sorrindo, acompanhado da mãe e de Memo. — Eu sabia que você ia voltar à razão — disse ele. — No fim das contas, uma família não se destrói por causa de dinheiro. Camila tirou os óculos escuros. Os hematomas ainda estavam visíveis. — Não, Diego. Uma família se destrói quando confunde amor com saque. E, exatamente naquele momento, alguém bateu à porta. **Você acha que Diego ainda podia ser salvo ou já era tarde demais para pedir perdão?**

**PARTE 3** Camila abriu a porta sem pressa. Entraram dois agentes da Polícia de Investigação, uma promotora do Ministério Público, seu advogado e Maribel, a contadora que havia descoberto a primeira movimentação suspeita. Atrás deles vinha Arturo Robles, não acompanhado de homens intimidadores, mas com uma denúncia formal nas mãos. O sorriso de Diego desapareceu. — O que está acontecendo? Dona Aurora deu um passo à frente. — Isto é um abuso. Meu filho é o marido desta senhora. A promotora olhou para ela com tranquilidade. — Justamente por isso a violência doméstica também faz parte desta investigação. Diego virou-se para Camila com os olhos cheios de raiva. — Você armou uma armadilha para mim. Camila respirou fundo. Durante anos ela teve medo dessa frase. Medo de parecer fria, exagerada, uma má esposa. Medo de que as pessoas dissessem que uma mulher com dinheiro não tinha direito de reclamar. Mas, naquela manhã, diante do homem que a havia agredido, traído e usado como escada para subir na vida, ela já não sentia culpa. — Não, Diego. A armadilha foi preparada por vocês com gotas, câmeras e documentos falsificados. Eu apenas parei de salvar você. O advogado colocou uma pasta grossa sobre a mesa. — Aqui estão todas as transferências realizadas pelo senhor Diego Mendoza nas últimas quarenta e oito horas com a própria assinatura dele. Empresas fantasmas, contas pessoais, pagamentos para uma terceira pessoa chamada Karla Medina e operações simuladas da oficina. Tudo foi registrado. Memo levou as mãos à cabeça. — Diego, você disse que a Camila ia pagar tudo. — Cala a boca! — gritou Diego. Dona Aurora tentou pegar a pasta, mas Maribel a impediu. — A sua assinatura também está aqui como testemunha, senhora. E também os áudios em que a senhora orienta Rosa a dopar a doutora Camila. A sogra ficou vermelha. — Essa mulher está mentindo. É uma empregada ressentida. Rosa apareceu no corredor. Seus olhos estavam marejados, mas sua voz permaneceu firme. — Eu não estou mentindo. A senhora me ofereceu vinte mil pesos e depois ameaçou denunciar meu sobrinho à imigração, mesmo ele tendo nascido aqui. Eu tive medo, sim. Mas tive mais medo ainda ao ver o que vocês queriam fazer com a dona Camila. Camila aproximou-se de Rosa e segurou sua mão. — Obrigada por não ter ficado calada. Diego soltou uma risada desesperada. — Que bonito. Agora todo mundo virou santo. A promotora começou a ler as acusações preliminares: violência doméstica, fraude, falsificação de documentos, administração fraudulenta, tentativa de extorsão e possível associação criminosa. Memo responderia por operações simuladas e uso de contas falsas. Dona Aurora seria intimada a responder por ameaças, coação e participação no plano contra Camila. Quando ouviu a palavra “preso”, Diego perdeu completamente a máscara. — Camila, por favor. Não faça isso. Eu estava desesperado. O Robles ia acabar comigo. Minha mãe me pressionava. O Memo também. Eu não pensei. Camila olhou para ele. Era o mesmo homem que anos antes preparava café para ela enquanto estudava para o mestrado. O mesmo que prometeu, em um terraço de Coyoacán, que jamais sentiria inveja dela. O mesmo que chorou no dia do casamento dizendo que ela era o seu lar. E, ainda assim, o homem que estava diante dela parecia outro. Ou talvez sempre tivesse sido aquele, e ela simplesmente não quis enxergar. — Você pensou, sim, Diego — disse calmamente. — Pensou em falsificar minha assinatura. Pensou em me dopar. Pensou em tirar fotos para destruir minha reputação. Pensou em comprar uma casa para outra mulher com o meu dinheiro. A única coisa em que você não pensou foi que um dia eu deixaria de sentir pena de você. Ele abaixou a voz. — Eu amo você. Camila balançou a cabeça. — Não. Você amava viver protegido por mim enquanto fazia eu me sentir culpada por ser mais forte do que você. Dona Aurora lançou mais uma vez seu veneno. — Foi por isso que meu filho procurou a Karla. Porque ela fazia ele se sentir homem de verdade. Camila virou-se para ela. — Não, senhora. A Karla fazia ele se sentir impune. A senhora fez ele acreditar que era intocável. E eu cometi o erro de financiar essa mentira. Pela primeira vez, Dona Aurora ficou sem resposta. Os agentes colocaram algemas em Diego. Ele resistiu, não por dignidade, mas por puro pânico. Memo começou a chorar, repetindo que apenas havia seguido ordens. Dona Aurora gritava que tudo era culpa de Camila, que as mulheres de antigamente suportavam qualquer coisa e que ela havia destruído uma família. Camila ouviu cada palavra sem se mover. Quando Diego passou por ela, murmurou: — Você vai acabar com a minha vida. Camila respondeu: — Não. Eu apenas vou deixar de pagar pelas consequências das suas escolhas. A porta se fechou atrás deles. O silêncio que ficou no apartamento não era paz imediata. Era algo diferente. Como quando uma tempestade termina, mas o cheiro de destruição continua no ar. Camila olhou para a sala.

 

**PARTE 2** O elevador se abriu com um som suave, mas, para Diego, foi como se a porta tivesse sido arrombada. Entraram três homens de terno escuro, encharcados pela chuva, e atrás deles vinha um senhor de barba grisalha, óculos de armação fina e uma pasta preta debaixo do braço. Ele não parecia um criminoso. Parecia pior: alguém acostumado a cobrar aquilo que os outros juravam conseguir esconder. — Boa noite — disse o homem. — Sou Arturo Robles. Dona Aurora fez o sinal da cruz. Memo tentou caminhar em direção à cozinha, mas um dos homens bloqueou sua passagem. Robles olhou primeiro para Camila. Viu o lábio cortado, a marca no rosto, a roupa encharcada. Depois olhou para Diego. — Então você tem coragem de bater nela. Mas, na hora de pagar, essa coragem desaparece. Diego levantou as mãos. — Seu Arturo, amanhã resolvemos isso. A Camila está exagerando. Ela tem dinheiro de sobra, só está fazendo drama. Camila soltou uma risada amarga. — Nunca mais fale do meu dinheiro como se ele fosse o ar que você respira. Robles abriu a pasta. — Seu marido e o irmão dele pegaram um empréstimo de 9 milhões. Disseram que era para comprar máquinas para a oficina, mas metade foi para apostas e a outra metade para contas pessoais. Eles apresentaram cópias da escritura do seu apartamento, demonstrativos financeiros da sua empresa e uma suposta autorização assinada pela senhora. — Falsificada — respondeu Camila. — É o que tudo indica. A sala inteira ficou em silêncio. Dona Aurora apertou os lábios. — Meu filho não falsificou nada. Ele só queria fazer o negócio dele crescer. Uma esposa decente ajuda o marido. — Esposa não é caixa eletrônico — retrucou Camila. Durante quase um mês, Camila montou aquele quebra-cabeça em silêncio. Encontrou notas fiscais falsas, fornecedores inexistentes, e-mails enviados por uma conta que imitava a dela e movimentações suspeitas em um cartão corporativo. Sua contadora, Maribel, avisou que alguém estava tentando abrir uma linha de crédito usando sua assinatura digital. Camila não confrontou Diego imediatamente. Esperou. Porque uma parte dela ainda precisava acreditar que existia uma explicação menos suja. Mas, naquela noite, a explicação estava sentada na sala de sua casa, bebendo tequila sobre o seu tapete. Robles deu um passo em direção a Diego. — A doutora me procurou para deixar claro que não vai pagar um único centavo dessa dívida. Portanto, o problema já não é dela. É de vocês. Memo começou a suar. — Diego, conta a verdade. — Cala a boca! — rosnou Diego. Camila olhou para Memo. — Que verdade? Ninguém respondeu. Então, pela porta de serviço, apareceu Rosa, a senhora que ajudava Camila três vezes por semana havia anos. Suas mãos tremiam e seus olhos estavam cheios de medo. — Dona Camila… me perdoe. Dona Aurora levantou-se de um salto. — Você fique calada, sua intrometida! Rosa tirou do bolso do avental um pen drive embrulhado em um guardanapo. — Mandaram que eu jogasse isso fora. Mas eu não consegui. Camila sentiu um frio diferente percorrer o corpo. Conectou o pen drive ao notebook, que, por milagre, ainda funcionava. O primeiro arquivo era um áudio. A voz de Dona Aurora ecoou pela sala: “Rosa, hoje você coloca as gotas no café dela quando ela chegar. Não vai acontecer nada com ela, só vai dormir. Depois que ela apagar, o Diego tira as fotos e usa o dedo dela para assinar. Depois dizemos que ela ficou bêbada com outro homem. Uma mulher que ainda tem vergonha prefere assinar qualquer papel a passar por essa humilhação.” Camila parou de respirar. Diego abaixou a cabeça. Lupita, irmã de Diego, começou a chorar em silêncio. — Fotos? — perguntou Camila. — Que fotos? Rosa apontou para uma mochila debaixo da mesa. Robles a abriu. Dentro havia um pequeno frasco, uma câmera escondida, documentos de cessão de ações, um acordo de divórcio e uma procuração com espaços prontos para serem preenchidos. Camila pegou a procuração. Seu nome estava escrito no alto da página. Sua assinatura aparecia escaneada no final. — Vocês queriam tomar a minha empresa. Dona Aurora ergueu o queixo. — Nós queríamos proteger meu filho de uma mulher egoísta. Você tem demais. Ele merece alguma coisa. — Merece me roubar? — Merece não viver sustentado. Diego explodiu. — Já chega, mãe! Todos olharam para ele. Por um segundo, Camila pensou que ele finalmente iria defendê-la. Mas Diego apenas acrescentou: — Você não precisava dizer desse jeito. Foi o último pedaço de amor que ainda existia dentro dela que se despedaçou. Camila abriu outro arquivo. Era um vídeo de Diego falando ao telefone na garagem. “Quando ela assinar, vendemos as ações dela. Com esse dinheiro eu pago o Robles, compro a casa da Karla em Cuernavaca e vou embora. A Camila nem vai entender o que aconteceu até ser tarde demais.” Karla. Aquele nome caiu como uma pedra. Camila não gritou. Não perguntou quem era. Não fez escândalo. Seu rosto, marcado pelos golpes, endureceu. — Então também existia outra mulher. Diego tentou se aproximar. — Não é como você está pensando. — Claro que não. É pior. Robles fechou a pasta. — Com tudo isso, a senhora pode denunciá-los ainda hoje. Camila olhou para Diego. Ele estava pálido, encurralado, mas ainda procurava uma saída. E ela decidiu lhe dar uma. Não por compaixão. Por estratégia. — Amanhã, às nove da manhã, você vai ao escritório do meu advogado — disse ela. — Você, o Memo e a sua mãe. Dona Aurora franziu a testa. — Para quê? — Para assinar um acordo de administração temporária da oficina e reconhecimento da dívida. Se realmente querem que eu os ajude, vão colocar o nome de vocês em cada movimentação. Diego levantou a cabeça, confuso. — Você vai me ajudar? Camila olhou diretamente para ele, sem piscar. — Vou deixar que você prove quem realmente é. No dia seguinte, Diego chegou de banho tomado, perfumado e usando uma camisa nova. Dona Aurora estava vestida como se fosse para uma missa solene. Memo parecia não dormir havia dias. Na sala de reuniões, o advogado de Camila colocou os documentos sobre a mesa. Diego leu apenas por cima. Viu palavras como “administração”, “pagamentos”, “fornecedores” e “poderes temporários”. Sorriu. Achou que Camila continuava sendo a esposa que cedia para salvar o casamento. Assinou. Memo assinou. Dona Aurora assinou como testemunha. Camila também assinou, usando óculos escuros para esconder os hematomas. Durante quarenta e oito horas, Diego agiu como dono de tudo. Entrou na oficina, ordenou transferências, pressionou funcionários e enviou dinheiro para duas empresas fantasmas. Também fez uma transferência para Karla como entrada de uma casa. O que ele não sabia era que cada movimentação estava sendo monitorada por Maribel, pelo advogado e pelo Ministério Público. No terceiro dia, Camila o chamou novamente ao apartamento. Disse que conversariam sobre a escritura. Diego chegou sorrindo, acompanhado da mãe e de Memo. — Eu sabia que você ia voltar à razão — disse ele. — No fim das contas, uma família não se destrói por causa de dinheiro. Camila tirou os óculos escuros. Os hematomas ainda estavam visíveis. — Não, Diego. Uma família se destrói quando confunde amor com saque. E, exatamente naquele momento, alguém bateu à porta. **Você acha que Diego ainda podia ser salvo ou já era tarde demais para pedir perdão?**

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