—Se o menino parecer estranho, não o abrace com força. Ele está de mau humor e eu não quero que você faça uma cena aqui.
Foi a primeira coisa que Valeria disse a Ricardo Galván quando ele desceu de seu jato particular no hangar de Toluca, depois de três meses de viagem pela Espanha, Alemanha e Dubai fechando contratos para sua empresa de inteligência artificial.
Ricardo não respondeu. Apenas procurou o filho com o olhar.
Diego tinha 7 anos e estava parado ao lado da caminhonete preta, vestido com um terno caríssimo que parecia saído de uma vitrine de Polanco. O cabelo engomado, os sapatos brilhantes, a camisa fechada até o pescoço. Mas não sorria. Não correu. Não gritou “pai”. Nem sequer levantou o rosto.
Ricardo sentiu algo estranho no peito.
—Campeão —disse, ajoelhando-se diante dele—. Já voltei.
Diego apertou os lábios. As mãos tremiam coladas ao corpo.
Ricardo tentou abraçá-lo, mas assim que tocou suas costas, o menino se encolheu como se tivesse levado um choque.
—Ai… —escapou num fio de voz.
Valeria estalou a língua.
—Viu? Drama puro. Desde que você foi embora ele ficou impossível.
Ricardo olhou para ela. Sua ex-esposa usava óculos escuros, bolsa de grife e um perfume tão forte que parecia querer apagar qualquer outro cheiro do mundo.
No caminho até a mansão em Lomas de Chapultepec, Diego não quis sentar. Ficou de pé, segurando o apoio da caminhonete, com as pernas afastadas de um jeito estranho. Suava, mesmo com o ar-condicionado gelado.
—Senta, filho —pediu Ricardo.
—Assim está bem —murmurou Diego, sem olhá-lo.
Valeria falou o trajeto inteiro sobre um jantar, um leilão beneficente, umas fotos que queria fazer do menino. Ricardo já não a ouvia. Só via Diego suportando algo que nenhuma criança deveria suportar em silêncio.
Quando chegaram à mansão, Ricardo colocou sobre o tapete várias caixas de brinquedos que havia comprado em Londres.
—Vem, campeão. Trouxe o kit de construção que você queria.
Os olhos de Diego brilharam por um segundo, mas Valeria cortou com uma voz seca:
—Senta e brinca com seu pai. Eu tenho pressa.
Diego obedeceu. Dobrou os joelhos lentamente. Quando o corpo tocou o tapete, soltou um grito abafado e caiu de lado, se contorcendo.
Valeria revirou os olhos.
—Não começa, Ricardo. Ele só quer atenção.
Ricardo afrouxou o cinto do menino com as mãos trêmulas. Então o cheiro veio de repente. Ácido. Doloroso. Impossível de ignorar.
E quando viu a pele irritada, inchada e ferida sob a roupa elegante, Ricardo entendeu que o filho não estava fazendo drama.
—Eu pensei que fosse só uma assadura…
Ricardo pegou Diego no colo sem se importar em manchar a camisa branca.
Ao passar por Valeria, só disse:
—Espere. Isso só está começando.
E ninguém ainda podia imaginar a verdade que estava prestes a sair daquela casa.

PARTE 2
Ricardo estava no hospital ABC em Santa Fe, parado diante de uma faixa amarela enquanto os médicos iam e vinham ao redor de Diego. Valeria não se aproximava. Ficava junto à porta, apertando a bolsa como se o luxo pudesse protegê-la da realidade. O doutor Herrera, chefe da pediatria, saiu quase uma hora depois com o rosto fechado.
—Senhor, encontrei uma testemunha. A senhora Lupita viu tudo do jardim dela. E o que ela vai dizer é pior do que os relatórios bancários.
Ricardo sentiu o chão se mover.
—Eu te disse.
—Encontramos marcas recentes sobre feridas antigas. Alguém tentou limpar, talvez com uma toalha áspera ou uma escova, pouco antes de trazê-lo até mim. Falta de cuidado. Nenhuma escola. Nenhum medicamento.
Então Vargas ligou da casa vizinha.
—Chefe, encontrei uma testemunha. A senhora Lupita viu tudo do jardim dela. E o que ela vai dizer é pior do que os relatórios bancários.
Ricardo colocou o fone e sentiu as mãos congelarem. Do outro lado surgiu uma professora aposentada chorando diante da câmera. E quando começou a falar, Ricardo entendeu que o pesadelo de Diego não era algo acidental. Era uma sentença diária.
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