PARTE 1
A chuva castigava a serra de Hidalgo com tanta força que os limpadores de para-brisa mal conseguiam manter a estrada visível.
Às nove da noite, Mauricio Salgado seguia por uma estrada secundária em direção a Santa Cruz de los Encinos, a cidade onde havia crescido. Fazia cinco meses que trabalhava em Monterrey e ainda não tinha conseguido visitar a mãe.
Dona Refugio tinha setenta e seis anos, preparava barbacoa todos os domingos em frente ao mercado e era daquelas mulheres que preferiam passar fome a pedir um favor.
Por isso, Mauricio sentiu que havia algo errado quando ela parou de atender suas ligações.
Sua irmã, Verónica, repetia sempre a mesma resposta quando ele perguntava.
— Mamãe está bem. Ficou alguns dias conosco em Pachuca. Não faça drama.
Mauricio tentou acreditar.
Mas, no grupo da família, já não apareciam mais fotos de dona Refugio. Nem uma xícara de café, nem uma consulta médica, nem um de seus áudios desejando que Deus os abençoasse.
Só havia fotos de Verónica exibindo a sala nova e do marido, Efraín, posando ao lado de uma caminhonete vermelha que ninguém sabia como ele havia conseguido pagar.
Aquele silêncio lhe pareceu estranho.
Então decidiu viajar sem avisar.
Ao passar perto de uma antiga mina de cascalho, ouviu algo em meio ao barulho da tempestade.
Parecia um gemido abafado.
Freou bruscamente.
Desceu do carro com a lanterna do celular e caminhou entre o mato alto, chapas de metal abandonadas e montes de terra.
A lama chegava até os tornozelos.
— Tem alguém aí? — gritou.
Durante alguns segundos, não ouviu nada.
Então uma voz fraca respondeu.
— Por favor…
Mauricio correu até uma antiga estrutura abandonada e encontrou um poço de captação de água completamente seco, profundo e cheio de pedras, lixo e galhos.
Apontou a luz para o fundo.
Naquele instante, seu coração parou.
Lá embaixo estava sua mãe.
Dona Refugio permanecia encolhida contra a parede do poço, descalça, com um rebozo encharcado sobre os ombros.
Tinha sangue seco na testa, os lábios arroxeados e as mãos cobertas de arranhões.
— Mãe!
Mauricio desceu como pôde, usando uma corrente enferrujada presa a um poste.
Feriu as mãos.
Machucou as costas.
Mas não sentiu nada até alcançar a mãe.
A idosa mal conseguiu abrir os olhos.
— Meu filho… achei que ninguém mais viria.
Mauricio a abraçou.
Seu corpo estava tão frio e tão leve que ele teve medo de quebrá-la.
— Eu estou aqui. Não vou deixar a senhora.
Com a ajuda de um caminhoneiro que parou ao ouvir seus gritos, conseguiu tirá-la do poço quase quarenta minutos depois.
Na clínica regional, o médico confirmou que dona Refugio sofria de hipotermia, desidratação severa, uma costela fraturada e vários hematomas nas duas pernas.
— Ela não caiu hoje — disse o médico com seriedade. — Está aí há pelo menos três dias.
Mauricio saiu para o corredor com as roupas cobertas de lama e ligou imediatamente para Verónica.
— Onde está a mamãe?
— Aqui em casa, dormindo — respondeu ela sem hesitar.
Mauricio olhou para a porta da emergência e apertou a mandíbula.
— Que estranho… porque eu acabei de tirá-la de um poço e ela quase morreu.
Do outro lado da linha não houve gritos.
Nem explicações.
Apenas um silêncio tão longo que Mauricio entendeu que o pior ainda estava por vir.
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