O gerador de emergĂŞncia demorou sete segundos para ligar.
Quando as lâmpadas vermelhas se acenderam, Selma já não estava ali.
Gael empurrou a médica e entrou no centro cirúrgico.
Zafira permanecia inconsciente, ligada a aparelhos. Ao lado dela, o berço térmico estava vazio.
— Onde está o bebê?
Uma enfermeira apontou para a porta dos fundos.
— Um médico o levou.
— Qual médico?
Ela nĂŁo precisou responder.
Na parede, uma câmera girou lentamente em direção a Gael.
O alto-falante estalou.
— Você cresceu muito bem, Dante.
A voz era calma.
Quase paternal.
— Silas! — Gael gritou.
— Traga Selma ao estacionamento subterrâneo. Caso contrário, o recém-nascido não verá o amanhecer.
A transmissĂŁo cessou.
Gael correu para o elevador, mas as portas estavam travadas. Desceu pelas escadas, saltando degraus.
No segundo subsolo, encontrou Selma ajoelhada diante de um carro preto.

Silas segurava o bebê nos braços.
Era um homem alto, de cabelos completamente brancos. Vestia o mesmo jaleco usado pelos médicos do hospital. Ao lado dele estava Aristeu, com uma faixa ensanguentada na cabeça.
— Você está vivo — Gael disse.
Aristeu sorriu.
— Nilo não teve a mesma sorte.
Gael fechou os punhos.
— Onde está meu irmão?
O porta-malas do carro se abriu.
O verdadeiro Gael estava lá dentro, amarrado, com sangue escorrendo pela testa.
— Agora estamos todos reunidos — Silas declarou.
Selma começou a chorar.
— Entregue a criança.
— Esta criança não pertence a vocês.
Gael avançou um passo.
— Zafira é a mãe.
— Zafira foi apenas o recipiente final.
Silas retirou a manta do bebĂŞ.
No peito minĂşsculo havia uma cicatriz recente.
Gael paralisou.
— O que fizeram com ele?
— Corrigimos uma falha — Silas respondeu. — A mesma falha cardĂaca que vocĂŞ carregava ao nascer.
— Você operou um bebê dentro do útero?
— Eu aperfeiçoei o que comecei há vinte e sete anos.
O verdadeiro Gael se debateu no porta-malas.
— Conte a verdade sobre o embrião!
Silas sorriu.
— O material genético não era seu, Gael.
Aristeu olhou para ele, surpreso.
— Você disse que usaria o filho saudável.
— Eu precisava que vocĂŞ financiasse a clĂnica.
Silas fitou Gael.
— O embrião implantado em Zafira foi criado a partir de células preservadas de vocês dois.
— Dois homens não podem gerar um filho.
— Não podiam.
O silĂŞncio foi quebrado pelo choro do bebĂŞ.
— Ele é nosso irmão? — Gael perguntou.
— Geneticamente, é algo mais complexo.
Aristeu puxou uma arma.
— Você me enganou.
Silas nĂŁo pareceu assustado.
— Você queria um herdeiro Calazans. Eu lhe dei um ser humano sem mãe biológica, sem doenças hereditárias e com material dos dois gêmeos.
— Entregue o bebê — Aristeu ordenou.
Selma se levantou entre os dois.
— Acabou.
O tiro ecoou no estacionamento.
Selma caiu.
Gael correu até ela, mas o verdadeiro Gael conseguiu chutar a tampa do porta-malas contra Aristeu. A arma deslizou pelo chão.
Silas colocou o bebĂŞ no banco traseiro e tentou entrar no carro.
Gael o alcançou.
Os dois caĂram sobre o concreto.
Silas apertou os dedos contra a cicatriz perto da sobrancelha dele.
— Você só está vivo por minha causa.
— Eu sobrevivi apesar de você.
Gael golpeou o rosto do médico.
Aristeu recuperou a arma.
Antes que disparasse, Selma, ainda caĂda, segurou seu tornozelo.
O tiro atingiu Silas no peito.
Ele tombou ao lado do carro.
Aristeu apontou novamente.
O verdadeiro Gael se lançou sobre ele.
Os dois bateram contra a mureta do estacionamento.
Por um segundo, ficaram equilibrados na borda.
— Você devia ter morrido naquela instituição — Aristeu rosnou.
— Você primeiro.
A mureta cedeu.
Aristeu caiu sozinho.
O impacto ecoou dois andares abaixo.
Sirenas invadiram o subterrâneo.
Gael libertou o irmão e pegou o bebê no carro. A criança chorava, mas respirava.
Selma ainda estava consciente.
— Me perdoem — pediu.
O verdadeiro Gael ajoelhou-se ao lado dela.
— Você salvou minha vida quando eu nasci.
— E destruà o resto dela.
— Ainda pode contar tudo Ă polĂcia.
Ela fechou os olhos, exausta.
Minutos depois, agentes cercaram o local.
Silas foi levado algemado, vivo, apesar do ferimento. Selma tambĂ©m sobreviveu. Seu depoimento revelou clĂnicas clandestinas, prontuários falsificados e dezenas de procedimentos realizados sem consentimento.
Zafira despertou dois dias depois.
Gael estava ao lado da cama, segurando o recém-nascido.
— Ele é meu filho? — ela perguntou.
Gael engoliu o choro.
— Não biologicamente.
Zafira tocou o rosto do bebĂŞ.
— Eu o carreguei. Senti ele se mover. Quase morri por ele.
O verdadeiro Gael observava da porta.
— Então é seu — disse.
Meses depois, a lápide de Dante Calazans foi retirada do jazigo.
No lugar, colocaram uma placa com o nome da mulher que morrera ao dar Ă luz os gĂŞmeos.
Gael decidiu continuar usando o nome que carregara por toda a vida.
Seu irmão também.
NĂŁo por confusĂŁo.
Por escolha.
Um era Gael Calazans.
O outro, Gael Montenegro.
E o bebĂŞ recebeu o nome de Dante.
NĂŁo como homenagem Ă mentira.
Mas como prova de que um nome roubado podia renascer livre.
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