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PARTE FINAL: O primeiro tiro não veio da porta. Veio da floresta. O som ecoou pela Serra do Cipó como se a montanha tivesse engolido um trovão.

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Os homens lá fora gritaram, lanternas se espalharam no mato, e por um segundo tudo virou caos — sombras correndo entre árvores, ordens mal dadas, medo disfarçado de raiva.

Mateus não se mexeu.

Ele só disse, baixo:

— “Agora.”

Eu não entendi no começo.

Mas então vi.

Não eram só eles.

Havia mais gente na encosta.

Gente que eu nunca tinha visto, mas que conhecia aquele lugar como se tivesse nascido dele.

E eles não estavam com medo.

A porta foi arrombada.

Madeira estalando, ferro cedendo.

O homem da agência entrou primeiro, molhado, sujo, com o mesmo sorriso torto de quem acredita que o mundo ainda obedece assinatura.

— “Acabou, Mateus. Entrega ela.”

Atrás dele, mais dois.

Armas levantadas.

Eu senti meu corpo inteiro ficar frio.

Mateus deu um passo à frente.

Só um.

E disse:

— “Ela não é entrega.”

O homem riu.

— “Ela tem papel. Tem dono. Tem preço.”

Eu senti aquilo subir pela minha garganta como bile.

“Tem dono.”

Mateus olhou direto pra ele.

— “Então o papel errou.”

Silêncio.

Por um segundo, ninguém respirou.

E então ele fez algo que eu não esperava.

Ele abaixou a arma.

O homem sorriu, achando que tinha vencido.

Mas Mateus não estava desistindo.

Ele estava decidindo.

— “Marisa,” ele disse sem olhar pra mim, “você ainda quer escolher?”

Meu coração bateu forte.

— “Sim.”

Ele assentiu.

E então virou para mim.

— “Então fala.”

O mundo pareceu parar.

A chuva, o vento, os homens armados — tudo virou fundo distante.

Eu dei um passo à frente.

Minha perna doía.

Meu peito queimava.

Mas minha voz saiu firme.

— “Eu não vou com vocês.”

O homem arregalou os olhos.

— “Isso não é escolha sua—”

Mateus interrompeu:

— “Agora é.”

E atirou.

Não no homem.

No papel.

Na mesa de madeira atrás dele, onde o contrato estava dobrado, molhado, como uma sentença antiga.

O tiro atravessou tudo.

O silêncio que veio depois foi absoluto.

E então começou o que ninguém esperava.

Os homens lá fora começaram a recuar.

Um por um.

Não porque perderam.

Mas porque entenderam.

Aqueles da floresta desceram mais perto agora.

E eu vi.

Não era só Mateus.

Era um lugar inteiro cansado de ser comprado.

Quando tudo terminou, já era quase manhã.

O homem da agência tinha ido embora sem correr — o que é pior do que fugir.

Os outros desapareceram na mata.

A casa ficou de pé.

Ainda inteira.

Mas diferente.

Mateus estava encostado na parede, respirando pesado.

Eu me aproximei.

— “Agora acabou?” perguntei.

Ele demorou a responder.

— “Não.”

Eu franzi a testa.

Ele olhou pra mim.

— “Agora começa do jeito certo.”

Naquela manhã, o sol entrou pela primeira vez sem parecer ameaça.

Eu estava sentada na porta, sentindo a madeira fria sob meus dedos.

Mateus apareceu atrás de mim com dois copos de café.

Ele me entregou um.

— “Você ainda pode ir embora,” ele disse.

Eu olhei para o café.

Depois para a montanha.

Depois para ele.

— “E você ainda pode parar de agir como se fosse sozinho.”

Ele não respondeu de imediato.

Só sentou ao meu lado.

E pela primeira vez, não parecia um homem esperando guerra.

Parecia alguém tentando aprender a viver depois dela.

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